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São João :: 2017-04-08 -18:58:00

Guerra: família deixa Síria e escolhe São João para recomeçar


 

Nesta semana, a Síria foi atacada com armas químicas e dezenas de pessoas morreram ou ficaram feridas. Entre as vítimas, havia muitas crianças e o mundo ficou chocado.

Mas esta é apenas uma das milhares de histórias sangrentas e brutais registradas na Síria, nos últimos seis anos. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), a guerra naquele país já matou mais de 400 mil pessoas e provocou o êxodo de cerca de 4,5 milhões.

Este é o resumo da guerra civil que assola a Síria desde 2011. O conflito, que começou com protestos da sociedade contra o presidente Bashar al-Assad,  se converteu em cenas de terror que não apenas afetam a população local, mas arrastam potências regionais e internacionais.

Diante deste cenário de medo, famílias inteiras acabaram deixando a Síria, das mais diversas formas. Estima-se que mais de 25 mil sírios tenham morrido afogados, tentando atravessar o oceano para fugir da guerra.

E os que não morreram enfrentam o desafio de reconstruir a vida em países com cultura bastante diferente de sua terra natal.

Esse é o caso de uma família que deixou a Síria há dois anos, momento em que a guerra estava no ápice da sua violência, e hoje vive em São João da Boa Vista.

Bisher Midani, de 44 anos, Lynn Lahham, 27 e Celine Midani, de apenas quatro anos, estão no Brasil há dois anos e em São João há um ano e meio.

O MUNICIPIO conseguiu contato com a família. O casal dispôs-se a conversar com a reportagem. Desde que chegaram à cidade, esta é a primeira vez que eles falam com a imprensa e contam por que deixaram a Síria, os motivos da escolha pelo Brasil e todas as dificuldades que ainda enfrentam no país.

O encontro com a família para a realização desta entrevista aconteceu na residência onde vive, nas imediações do bairro Pratinha. Bisher Midani e Lynn Lahham conversaram com a reportagem por cerca de uma hora. Com dificuldades para falar o português, a entrevista foi feita boa parte em inglês.

 

A saída da Síria

Bisher Midani conta que estavam vivendo normalmente na Síria quando a situação foi piorando e o conflito começou a ficar muito violento. Foi, então, que ambos começaram a pesquisar sobre possíveis países onde começar uma nova vida. “Nós estávamos olhando no mapa países que fossem amigáveis com o estrangeiro, com diversidade cultural e que fornecessem visto para estrangeiros sírios”, explica.

E foi o Brasil que se encaixou em tudo que eles buscavam. Bisher é um estudioso do país e da América Latina há anos e é apaixonado pelo futebol brasileiro desde 1982. Ele citou que admira ex-jogadores como Zico, Falcão, Sócrates etc.

Assim, ele, a esposa e a filha, com apenas dois anos na época, deixam a Síria e desembarcam na cidade de São Paulo.

Ao chegarem à capital do Estado, alugaram uma casa com o dinheiro que conseguiram da venda de carros e outros patrimônios que tinham na Síria. E foi com essas finanças que sobreviveram no Brasil por longos meses.

Bisher revela que o governo brasileiro, e mesmo algumas entidades ajudam bastante na questão da documentação para viver no país, mas que não existe praticamente nenhuma outra ajuda no sentido de encaminhar os refugiados a postos de trabalho, para poderem recomeçar suas vidas.

Em São Paulo, enfrentaram enormes dificuldades e foram orientados a procurar cidades do interior, onde o mercado de trabalho seria menos competitivo e eles poderiam conseguir emprego com mais facilidade. Além do custo de vida ser menor do que a capital.

Passando de carro pela região, rumo a Poços de Caldas, repararam em São João da Boa Vista e perceberam ser uma cidade com boa quantidade de indústrias. Resolveram, então, trocar São Paulo por São João.

Aqui, começaram a buscar pelo visto definitivo, pois, até então, eles precisavam renovar a permanência no Brasil a cada seis meses.

Sem emprego, com dificuldades para falar o português e sem conhecer ninguém na cidade, Bisher narra que não foram fáceis os primeiros meses em São João.

No entanto, tudo começou a melhorar quando, um dia, na Praça Joaquim José, ele e Lynn conheceram David Noronha, atual presidente do Conseg.

David percebeu que a família precisava de ajuda e a apresentou ao promotor de justiça Guilherme Athayde. A partir daí é que o membro do ministério público começa a ajudar Bisher, Lynn e Celine a conseguirem a documentação definitiva para viver no Brasil.

David, Guilherme e outras poucas pessoas formam, atualmente, a rede de amizade da família Midani na cidade. Mas confessam que gostariam de conhecer mais sanjoanenses e ter uma vida social mais ativa.

O casal ainda cita outras pessoas que estão sendo importantes para eles em São João: Heloisa Pires Martins, da Letra Viva; Zaida Brianezi, do Colégio Acalanto, onde estuda a pequena Celine e Laerte Lelis, da Agência Verus. 

Questionado se algum dia passou pela sua cabeça voltar para Síria, em razão das dificuldades enfrentadas no Brasil, Bisher diz uma frase forte. “Voltar não. Seria como voltar para o inferno”.

Hoje, Bisher afirma que quer realmente ficar em São João e construir sua vida por aqui. E um grande sonho seria trazer seus pais, irmãos e a família de Lynn para morar no município.

Os familiares de ambos moram em Damasco e estão no meio da guerra. A comunicação ocorre por telefone, mas o medo de que algo aconteça com eles é constante, diz Bisher, que revela que a tragédia na Síria é muito maior do que a mídia tem condições de mostrar.

E para tentar mostrar o que poucos sabem a seu respeito, Bisher, que é formado em Direito e fala três idiomas, pretende escrever um livro sobre a guerra na Síria e do seu recomeço no Brasil.

 

Bisher e Lynn abrem Cozinha Árabe para se manter na cidade

Alguns sanjoanenses, ao conhecerem a família Midani, descobriram que Lynn, que é formada em Administração pela Universidade de Damasco, é uma excelente chef de cozinha da culinária árabe e sugeriram que eles criassem algo na área gastronômica como oportunidade de trabalho.

Surgiu, então, a ‘Damascus Cozinha Arabe Gourmet’. Lynn, com ajuda de Bisher, faz diversos pratos típicos sob encomenda ou até promove jantares em residências e eventos que apreciem esta culinária.

“A Lynn é uma cozinheira formidável e tudo que ela faz possui um sabor que só quem veio daquela região sabe fazer. O quibe frito, por exemplo, é diferente de todos que já comi por aqui. Indico demais os produtos deles”, fala David Noronha.

A culinária foi a forma que Bisher encontrou para complementar a renda da família, tendo em vista que somente ele trabalha na empresa Biagio e ainda paga aluguel.

Serviço

Damascus Cozinha Arabe Gourmet

Rua David de Carvalho, 725

Tel: (19) 99997-5031.

 

 

 

So Joo